Quem cuida de quem cuida?
Na maioria das famílias atípicas, o cuidado do filho se concentra na mãe, e quase ninguém cuida dela. Desde dezembro de 2024, a Política Nacional de Cuidados (Lei 15.069/2024) reconhece quem cuida sem receber como público prioritário. O que mais ajuda no dia a dia é dividir o cuidado com nome e horário, ter uma rede de outras mães e cuidar da própria saúde antes da crise.
Atualizado em · Equipe TRAMA
Como a sobrecarga aparece
Ela chega aos poucos. A mãe vira a agenda da casa, a ponte com a escola, a especialista no remédio, a que leva e busca. Larga primeiro o que é dela: a consulta que fica para depois, a amiga que deixa de ver, o trabalho que reduz. Cansaço e irritação passam a ser o normal.
Nada disso é fraqueza, nem falta de amor. É o resultado de uma carga que foi parar num lugar só.
O que a lei já reconhece
A Política Nacional de Cuidados, de 23 de dezembro de 2024, trata o cuidado como responsabilidade compartilhada entre família, Estado, empresas e comunidade. No artigo 8º, põe entre os públicos prioritários as pessoas com deficiência que precisam de apoio nas atividades da vida diária e quem cuida sem ser pago.
Para quem é servidor público federal, a Lei 8.112/1990 garante horário especial ao servidor que tem cônjuge, filho ou dependente com deficiência, sem compensar as horas. Na CLT, não existe redução de jornada garantida. O que existe é a Lei 14.457/2022, que manda a empresa dar prioridade nas vagas de teletrabalho a quem tem filho com deficiência, sem limite de idade. Fora isso, depende de acordo com a empresa ou de convenção coletiva.
Os números que circulam
“80% dos casais com filho autista se separam” é a frase mais repetida, e ninguém encontrou a origem dela. Um estudo da Universidade de Wisconsin-Madison com 391 famílias americanas de crianças autistas encontrou 23,5% de divórcio, contra 13,8% em famílias sem filho com deficiência. A diferença existe, e o 80% é exagero. Mais números com fonte em Famílias atípicas em números.
O que ajuda
Dividir o cuidado com nome e horário. “Me ajuda quando puder” raramente vira ajuda. “Você leva na terapia de quinta” vira. Vale para o pai, para os avós, para a madrinha.
Estar com outras mães que vivem o mesmo. O Entre Mães Atípicas faz encontros on-line e gratuitos toda sexta, às 10h, e a Comunidade TRAMA reúne mães de todo o Brasil.
Cuidar da própria saúde antes da crise. A consulta da mãe também entra na agenda. Pelo SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde.
Conhecer os direitos da criança. Cada benefício que a família consegue, do BPC à CIPTEA, tira peso de cima da mãe. O guia Mãe atípica: o que significa e o que muda começa por eles.
Perguntas frequentes
Burnout materno é diagnóstico?
Não. Na Classificação Internacional de Doenças da OMS (CID-11), burnout é um fenômeno ligado ao trabalho remunerado. Esgotamento parental é estudado por pesquisadores, mas não é diagnóstico oficial. O cansaço é real do mesmo jeito, e merece cuidado.
A lei reconhece a mãe que cuida?
Sim. A Política Nacional de Cuidados (Lei 15.069/2024) inclui entre os seus públicos prioritários as pessoas com deficiência que precisam de apoio nas atividades da vida diária e as trabalhadoras e trabalhadores não remunerados do cuidado, o que abrange a mãe que cuida do filho em casa.
Onde buscar ajuda psicológica pelo SUS?
Na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais perto de casa, que encaminha para atendimento em saúde mental quando é o caso. Em sofrimento intenso, o CVV atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188.
Este guia é informativo. A TRAMA não faz atendimento psicológico. Se você está em sofrimento, procure a UBS ou ligue 188 (CVV).